fotossíntese

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O impossível Angola
Fotograma e monotipia sobre papel Hahnemühle 84 x 128 cm
 






Araucária
Fotograma em papel Hahnemühle, monotipia e porcelana 180 x 108 cm
 

Mandragora prata
Fotograma em papel Hahnemühle, monotipia e porcelana 180 x 108 cm
 




Pata de vaca
Fotograma em papel Hahnemühle e banco de madeira 190 x 150 cm







O impossível pata de vaca
Fotograma e monotipia em papel Hahnemühle 84 x 64cm



Mandragora ouro
Fotograma em papel Hahnemühle e monotipia 108 x 170 cm
   



Dália
Fotograma em papel positivo gelatina de prata 35 x 28 cm


Samaúma  
Fotograma e monotipia 64 x 84  cm
 







Pata de vaca ouro
Fotograma em papel positivo gelatina de prata e folha de ouro 35 x 28 cm
 




 




Ravinas coqueiro, trombeta e samabaia gigante
Fotograma em cianótipo sobre lençol de algodão 190 x 150 cm
 




Embaúba
Fotograma em papel Hahnemühle e monotipia 105 x 84 cm








Chuva de angico
Fotograma em papel Hahnemühle e monotipia 190 x 150 cm  





Urucum ouro
Fotograma em papel gelatina de prata e folha de ouro 35 x 28 cm





Trigo
Vidro
Urucum
Fotograma em papel Hahnemühle e monotipia 70 x 56 cm





as infinitas formas de uma mesma coisa


Ao longo de décadas de trabalho, Marcia Xavier tem regressado repetidamente ao corpo. Não ao corpo como retrato ou representação, mas ao corpo como matéria de transformação. As mãos, os membros fragmentados, as silhuetas, os vestígios fotográficos e as presenças fantasmáticas que surgem recorrentemente na sua obra parecem constituir um mesmo organismo em permanente mutação. Em Fotossíntese, esse processo expande-se para além do humano e aproxima-se do mundo vegetal, revelando continuidades profundas entre formas de vida que habitualmente pensamos como separadas.


Quando Goethe escreveu A Metamorfose das Plantas, procurava uma forma de olhar para a natureza que escapasse à ló gica da separaçã o e da classiJicaçã o. Fascinava-o a ideia de que uma folha pudesse conter virtualmente todas as outras formas da planta e que o crescimento nã o fossemaisdoqueumasucessãodetransformaçõesdeummesmogestooriginal.Há algodessa visã o nas obras de Má rcia Xavier. As Jiguras que habitam Fotossíntese parecem existir num estado intermé dio, antes de se tornarem deJinitivamente corpo ou imagem. Cada forma conté m a memó ria de outra e anuncia já a seguinte. Mais do que um conjunto de obras sobre plantas, a exposiçãopropõeumareJlexãosobreametamorfosecomocondiçãopartilhadaportodosos seres vivos, aproximando-se da intuiçã o goethiana de que a vida nã o é feita de entidades isoladas, mas de inJinitas variaçõ es de uma mesma força criadora.

O título da exposição remete para a fotografia, linguagem central da prática de Márcia Xavier. Por outro lado, evoca a fotossíntese, processo através do qual transformam a luz em energia libertando o oxigénio que possibilita a vida na Terra. A luz ocupa assim uma posição singular, é simultaneamente o elemento que produz a imagem fotográfica e aquele que sustenta a existência. Entre fotografia e fotossíntese estabelece-se uma inesperada afinidade, uma espécie de parentesco material.

Através de cianótipos, fotogramas, monotipias e impressões fotográficas de diferentes escalas, a artista constrói um universo de figuras híbridas onde folhas, sementes, penas, crinas, cerâmicas, corpos e gestos coexistem num mesmo campo visual. Depois as espécies vegetais presentes nas obras, entre elas, embaúba, araucária, pata-de-vaca, lírio, samambaia gigante, angico, urucum, palmeira jerivá, trigo, não surgem como elementos decorativos nem como simples referências botânicas, são entidades que se fundem com o corpo, alterando-o e sendo por ele alteradas.

As obras recebem os nomes destas plantas, como se cada uma delas guardasse uma personalidade própria, uma história sua. No entanto, aquilo que a exposição parece sugerir é precisamente o contrário, sob a aparente diversidade das formas existe uma matéria comum. A mão pode tornar-se folha. A folha pode tornar-se mão. A semente pode assumir contornos humanos. O corpo pode transformar-se em raiz, caule ou flor. As fronteiras entre os diferentes reinos tornam-se permeáveis, quiça instáveis e por isso irrelevantes.

Esta aproximação encontra eco em observações científicas tão simples quanto surpreendentes. Por exemplo a hemoglobina que circula no sangue e a clorofila que permite a fotossíntese partilham estruturas semelhantes. O ferro que dá ao sangue a sua cor e o magnésio que ocupa o centro da clorofila diferem apenas no elemento que organiza uma arquitetura comum. Seiva e sangue, planta e animal, não são realidades opostas, mas variações de processos que a vida foi desenvolvendo ao longo de milhões de anos. Marcia Xavier parece interessar-se precisamente por esse território de continuidade. Um espaço onde as distinções entre humano, vegetal e animal deixam de funcionar como categorias rígidas e passam a ser entendidas como estados transitórios de uma mesma matéria viva.

Há também as monotipias que introduzem uma dimensão particularmente importante na prática da artista. Menos definidas, elas surgem como aparições ou memórias de formas em processos de transformação. Tal como acontece nos fotogramas e nos cianótipos, interessa menos a fixação de uma identidade do que o registo de uma passagem. As imagens parecem oscilar entre presença e ausência, figura e dissolução, permanência e desaparecimento.

Em alguns momentos, as obras convocam também imaginários ancestrais e mitológicos. A mandrágora, planta historicamente associada a formas humanas femininas e a narrativas mágicas, surge como uma referência que reforça a antiga intuição de que existe um parentesco profundo entre pessoas e plantas. Muito antes da biologia contemporânea revelar as afinidades químicas entre diferentes organismos, os mitos, lendas e cosmologias já imaginavam essa proximidade.

Mas não querendo dispersar, a exposição de Márcia Xavier não procura ilustrar uma teoria. O seu percurso é outro. Através da fotografia, a artista constrói uma experiência sensível que nos permite perceber aquilo que Emanuele Coccia descreve de forma tão simples – ‘Tudo está em tudo. Estamos em alguma coisa com a mesma intensidade e a mesma força com que ela está em nós.’ Talvez seja por isso que estas obras parecem simultaneamente estranhas e familiares. Reconhecemos nelas fragmentos de corpos, folhas, flores ou sementes, mas nenhuma dessas formas permanece estável durante muito tempo. Cada imagem contém a possibilidade de outra imagem, assim como cada organismo parece guardar em si a memória de muitos outros.

O título para esse pequeno ensaio - As infinitas formas de uma mesma coisa - tirei de um lindo livro de poesia da Ana Estaregui Fazer círculos com mãos de aves, talvez, porque procuremos sempre dizer a mesma coisa. Talvez regressemos continuamente às mesmas imagens, aos mesmos gestos, às mesmas perguntas, tentando aproximar-nos de algo que permanece inalcançável. Em Fotossíntese, Márcia Xavier convida-nos a habitar esse espaço de transformação contínua, onde tudo comunica com tudo e onde a vida se manifesta através de formas sempre provisórias, sempre mutáveis, sempre em relação.

As obras aqui reunidas parecem habitar o momento exato em que uma forma começa a tornar- se outra. E_ precisamente nesse intervalo entre diferença e continuidade que a obra de Má rcia Xavier encontra a sua força.

Luiza Teixeira de Freitas


the infinite forms of the same thing


Throughout decades of work, Márcia Xavier has returned repeatedly to the body. Not the body as portrait or representation, but the body as a material of transformation. The hands, fragmented limbs, silhouettes, photographic traces, and ghostly presences that recur throughout her oeuvre seem to constitute a single organism in perpetual mutation. In Fotossíntese, [Photosynthesis] this process extends beyond the human and approaches the vegetal world, revealing profound continuities between forms of life that we habitually think of as separate.

When Goethe wrote The Metamorphosis of Plants, he sought a way of looking at nature that escaped the logic of separation and classification. He was fascinated by the idea that a leaf might virtually contain all the other forms of a plant, and that growth was nothing more than a succession of transformations of the same original gesture. There is something of this vision in Márcia Xavier’s works. The figures inhabiting Fotossíntese seem to exist in an intermediate state, before becoming definitively body or image. Each form contains the memory of another and already announces the next. More than a group of works about plants, the exhibition proposes a reflection on metamorphosis as a condition shared by all living beings, drawing close to Goethe’s intuition that life is not made up of isolated entities, but of infinite variations of the same creative force.

The exhibition’s title refers to photography, the central language of Márcia Xavier’s practice. At the same time, it evokes photosynthesis, the process through which plants transform light into energy, releasing the oxygen that makes life on Earth possible. Light thus occupies a singular position: it is simultaneously the element that produces the photographic image and the one that sustains existence itself. Between photography and photosynthesis an unexpected affinity emerges, a kind of material kinship.

Through cyanotypes, photograms, monotypes, and photographic prints of varying scales, the artist constructs a universe of hybrid figures in which leaves, seeds, feathers, manes, ceramics, bodies, and gestures coexist within the same visual field. The plant species present in the works—including embaúba, araucaria, pata-de-vaca, lily, giant fern, angico, annatto, jerivá palm, and wheat—do not appear as decorative elements or simple botanical references. Rather, they are entities that merge with the body, altering it while being altered by it.

The works bear the names of these plants, as though each possessed its own personality and history. Yet what the exhibition seems to suggest is precisely the opposite: beneath the apparent diversity of forms lies a common substance. A hand may become a leaf. A leaf may become a hand. A seed may assume human contours. The body may transform into root, stem, or flower. The boundaries between different kingdoms become permeable, perhaps unstable, and therefore irrelevant.

This proximity finds an echo in scientific observations that are as simple as they are surprising. Hemoglobin, which circulates through the blood, and chlorophyll, which enables photosynthesis, share remarkably similar structures. The iron that gives blood its color and the magnesium at the center of chlorophyll differ only in the element that organizes a common architecture. Sap and blood, plant and animal, are not opposing realities but variations of processes that life has developed over millions of years. Márcia Xavier seems particularly interested in this territory of continuity: a space where distinctions between human, vegetal, and animal cease to function as rigid categories and instead become understood as transitional states of the same living matter.

There are also the monotypes, which introduce a particularly important dimension to the artist’s practice. Less defined, they appear as apparitions or memories of forms in the midst of transformation. As with the photograms and cyanotypes, what matters is less the fixation of an identity than the registration of a passage. The images seem to oscillate between presence and absence, figure and dissolution, permanence and disappearance.

At certain moments, the works also invoke ancestral and mythological imaginaries. The mandrake, a plant historically associated with female human forms and magical narratives, appears as a reference that reinforces the ancient intuition of a profound kinship between people and plants. Long before contemporary biology revealed the chemical affinities between different organisms, myths, legends, and cosmologies had already imagined such proximity.

Without wishing to digress, however, Márcia Xavier’s exhibition does not seek to illustrate a theory. Its path lies elsewhere. Through photography, the artist constructs a sensorial experience that allows us to perceive what Emanuele Coccia describes so simply: “Everything is in everything. We are in something with the same intensity and force with which it is in us.” Perhaps that is why these works appear simultaneously strange and familiar. We recognize in them fragments of bodies, leaves, flowers, or seeds, yet none of these forms remains stable for long. Each image contains the possibility of another image, just as each organism seems to carry within itself the memory of many others.

The title of this short essay—The Infinite Forms of the Same Thing—was borrowed from a beautiful poetry book by Ana Estaregui, Making Circles with Birds’ Hands. Perhaps it is because we are always trying to say the same thing. Perhaps we return continuously to the same images, the same gestures, the same questions, seeking to approach something that remains unattainable. In Fotossíntese, Márcia Xavier invites us to inhabit this space of continuous transformation, where everything communicates with everything else and where life manifests itself through forms that are always provisional, always mutable, always relational.

The works gathered here seem to inhabit the exact moment when one form begins to become another. It is precisely in this interval between difference and continuity that Márcia Xavier’s work finds its strength.
Luiza Teixeira de Freitas